Máquina dos simbolos – II

1º Maio, Aqui e Agora!

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O “A” cerclado exibido parelamente com a estrela bolchevique

É decididamente um erro subsistirem sinais ideológicos da propaganda bolchevista no âmbito das actividades do movimento anarquista actual. As referências derivadas do totalitarismo de estirpe leninista são imagens que emergem da esfera do simbolismo uraniano. O realismo socialista subordinado à influência do mundo antigo, remete heraldicamente para o mundo do trabalho escravo, não livre. A simbologia do céu e da transcendência da verticalidade é um primitivismo que garante a promoção da continuidade da vida e da concepção religiosa do alto Olimpo, transformado na soberania da ditadura do proletariado. A estrela de cinco pontas, brilhante e irradiando luz, é uma metáfora da magnificência sob a forma duma figura que aparece por via da influência inegável do esoterismo oriental em que o bolchevismo de origem eslava esteve suspenso. Portanto, importa evitar no quotidiano e na prática toda e qualquer crença astrológica que integre a experiência humana de uma maneira mágica numa escatologia arcaica substanciada no sobre-humano. É evidente – na medida em que assumindo a condição humana o anarquista não depende do determinismo astrológico e, consequentemente, não tem necessidade de horóscopos, de amuletos, de oblações, de êxtases, de estrelas flamejantes negras ou vermelhas – que ao sermos impelidos pela necessidade de nos situarmos no meio do mundo, quer para activar o princípio do apoio mútuo, quer para manter o influxo da acção libertária em qualquer lugar, em qualquer época, tornando real a nossa interligação como expressão da imanente força da vida, que agimos de forma a criar as condições de possibilidade que permitam realizar a revolução social e anarquista. Na verdade, estamos longe de nos termos apropriado da imagem da «estrela» que confere um significado determinado à representação e forma do pentagrama pitagórico. Tal vestígio iconológico, oriundo dos cultos órficos do período pré helénico, é hoje uma realidade ainda vivida no mercado ideológico e é plausível de ser também a caricatura democrática do culto do modelo totalitário plasmado no séc. XX através das ideias da esquerda política que enfatizou a figura do trabalhador. Quis apenas mostrar que a nossa intransigência rejeita a substituição de pseudo soluções e suprimir toda e qualquer alusão a tal efabulação exercida nos ritos pseudo revolucionários nele implicados.

Carlos Gordilho

 

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Hoje queremos tudo! Depois logo se verá

Sim! Queremos trabalho sem prêço.

Os anarquistas querem o fim do salariato!

!º MAIO - 1985

1º Maio 1985, Praça dos Restauradores, em Lisboa. Na imagem os companheiros J.M. Carvalho Ferreira, Ilídio Santos e Emídio Santana

Reinventar neste 1º Maio a alegria, lembrar o companheiro Júlio Carrapato

“Quando sobreveio o golpe fascista – desferido pelo brioso Exército Português, abençoado pela Igreja Católica e tendo atrás de si sectores da República e da Maçonaria -, já tinha o terreno desbravado à sua frente, restando-lhe apenas concluir (conquanto isto nunca tenha fim!) o trabalhinho muito bem encaminhado pela democracia.

O último sobressalto de dignidade do movimento operário, orientado contra o fascismo, sem dúvida, mas também contra o sistema, foi a greve geral insurreccional de 18 de Janeiro de 1934. Na altura, esse movimento apodado de “anarqueirada” por Bento Gonçalves, então secretário-geral do PCP. Sempre a necessidade de desacreditar aquilo que não controla e sobretudo, por vicitudes várias não totalmente alheias ao seu partido, não triunfou!

Ao desacreditarem um movimento que teve como consequência o desmantelamento da antiga CGT, os antigos dirigentes do PCP sabiam, contudo, o que faziam. Sabiam perfeitamente que um movimento autoorganizado, federado, horizontal e autónomo, inspirado na acção directa e alheio aos interesses do Estado e do Patronato, não era “bolchevizável” nem transformável em correia de transmissão do partido, sendo-o muito mais facilmente as corporações fascistas e verticais. No caso destas últimas, bastava conquistar algumas cúpulas e posicionar bem os burocratas no aparelho. Foi o que o PCP fez, durante o período marcelista e logo após o 25 de Abril, ao ponto de querer impôr, por via legislativa, uma “unicidade sindical” de matriz bolcho-fascista. Sabiam, enfim, esses dirigentes, com uma lógica aberrante, muito tortuosa e muito própria, que o Estado Novo, no fundo, estava a trabalhar para eles, limpando o mundo do trabalho das escórias da liberdade e da autonomia …

Dentro desta ordem de ideias e porque o seu partido, ao fim e ao cabo, canaliza consensos e elimina a verdadeira dessensão, amordaça a genuína rebeldia e apenas protesta meiga e selectivamente no parlamento, contribuindo para que o sistema tenha um melhor feedback e uma maior capacidade de “resposta”; não acha que merece a referida estátua …”

Texto extraído do folheto Uma História de Figurões e Figurantes: “de caras”, com Álvaro Cunhal, José Eduardo Moniz e alguns mais …  Edições Sotavento, 1993, Faro.

ZAGALA - 1964

Edição, 1964, Faro

Castanheira, um cacique impoluto

RDA: eis um compromisso!

O regime de Almada (RDA) tornou-se extático, naturalmente por via da qualidade dialéctica das suas personalidades que renovadamente se encontram em arroubos xâmanicos. Na verdade, trata-se de práticas políticas que prolongam a paciência da população até ao pasmo. Esta espécie de resiliência pública dos eleitores locais faz lembrar o arrebatamento dos “idiotas úteis”, frequentemente medalhados pelo “socialismo” arregimentado da República Democrática Alemã (RDA) na época em que  pontificava um tal Erich Honecker.

OURO DE ALMADA

Extraído do Boletim das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas. Tiragem 32.500 exemplares, Março, 2018

ESCOLA ALMADA

Extraído do Almada Boletim, edição Câmara Municipal de Almada. Tiragem 80.000 exemplares, Março/Abril, 2018

As sequelas do bolchevismo: é necessário desmontar os enviesados equipamentos de propaganda em Almada

TEATRO MUNICIPAL JOAQUIM BENITE

Considere-se desde logo o caso do encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, Joaquim Benite (1943-2012), veterano compagnon de route do Partido Comunista Português (PCP), profissional oriundo do jornalismo. Da sua biografia publicada consta, entre outras preciosidades, que em 1969 foi membro da comissão política nacional da Comissão Democrática Nacional (CDE), intelectual de elevado gabarito que no pós-25 de Abril acompanhou o Presidente Costa Gomes nas viagens à Polónia e à URSS  e os primeiros ministros de Portugal Palma Carlos e Vasco Gonçalves às conferências da NATO em Bruxelas, isto durante o período designado por procersso revolucionário em curso (PREC). Paralelamente, realce-se o aspecto cultural da sua intervenção pública no domínio da arte da encenação, enredada em estratagemas de manipulação social ao serviço da propaganda, realmente mais comprometida com a maior farsa política do século XX: a manipulação cultural dos símbolos ao serviço da propaganda internacional para a defesa da tese do “socialismo num só país”. O grupo de Teatro de Campolide, na época sediado temporariamente nas instalações da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense (AIRFA) desde 1978, entretanto, passa a designar-se Companhia de Teatro de Almada e inicia o processo de profissionalização enquanto companhia residente. Sendo a jóia da coroa da autarquia, contribuindo virtualmente para o equilíbrio das finanças locais, a “Companhia” conformou-se a subsistir no estado periclitante de dependência … e ainda hoje é suportada com financiamento público da administração local e central. O triunfo da representação, ou seja, da acção teatral enquanto pedagogia para a conformidade cívica da população, revela-se em indicadores como a abstenção de mais de 55% da população (160.000 habitantes) nas eleições para os órgãos locais. Será também o caso do Director do Centro de Arte Contemporânea, em Almada, o pintor Rogério Ribeiro (1930-2008), formado intelectualmente no crisol das ideias do movimento neo-realista, e que nos anos 80 foi projectado pelas estruturas centralizadas do Partido Comunista Português para o trabalho autárquico em Almada.

O grupo de teatro de campolide

GRUPO TEATRO DE CAMPOLIDE

Cambalacho: 19 milhões entre o Estado e os agentes da indústria cultural

Uma vertente da eticidade pública

De facto, a abertura do museu à sociedade contemporânea no processo de democratização da cultura criou um novo ambiente social. As consequências de todas estas transformações são imensas, e a visão global sobre a sociedade a que pertencemos vai no sentido de podermos considerar que a cultura na III república em Portugal deve pertencer aos cidadãos. Ora, como a noção de participação activa não rima com a verticalidade das estruturas dirigistas e intervencionistas do Estado na vida pública – o mesmo Estado que nas últimas décadas permitiu a multiplicação de organismos públicos e de “Fundações”, tornando-o mais presente e mais tutelar, este Estado que também fomentou a proliferação inédita de experiências que tornou visível a despesa descontrolada e a irreponsabilidade de sucessivas equipas de responsáveis pela direcção, gestão, administração das instituições públicas que não ponderaram a natureza dos recursos disponíveis, compremetendo globalmente com as suas inovadoras políticas para a cultura a possibilidade de se seguir nessa área um caminho não tutelado pelas indústrias culturais do governo – haverá que decidir-se entre duas alternativas: ou optar pela formação de uma astuta elite capaz de governar com os meios que a presente época disponibiliza, com base em estudos psicológicos de controlo dos processos cognitivos da mente, apesar de se manter o governo dentro dos limites do ilusório paradigma democrático, ou, numa outra escolha política oposta, optar por se libertar a consciência das massas submergidas pelo marketing governamental destilado pelo consumo alienado da cultura popular. Sendo certo que a cultura constitui socialmente uma dimensão irrevogável da cidadania, é, por isso, importante desestatizar a cultura, inferindo-se daqui uma limitação à função do Estado, para se devolver a cultura à polis, à liberdade da vida social da comunidade, isto é, aos cidadãos. Principalmente, porque a história não poderá nunca fazer-se sem inflectir esta determinação: “(…) a cidade há-de existir com as suas ruas amáveis, seus recessos de paz, suas sombras sussurrantes. Lá, enfim, faremos amor.”

Carlos Gordilho

TULE RIVER

 

O descalabro na cultura

O que fundamenta a existência do Ministério e aquilo que o justifica no exercício da política governamental, parece ser a causa da decadência da cultura oficial.

A Terra Devastada

T.S. Eliot (1922), trad. de Gualter Cunha

 

O  Que Disse o Trovão (Parte V)

Após o rubor do archote no suor dos nossos rostos

Após o silêncio gelado nos jardins

Após a agonia em terras pedregosas

Os brados e os gritos

Da prisão e do palácio e da ressonância

Do trovão primaveril em montanhas distantes

Ele que era vivo agora está morto

Nós eramos vivos agora vamos morrendo

Com alguma paciência

 

Não há água aqui mas apenas pedras

Só pedras sem água e a estrada arenosa

Serpeante no alto por entre as montanhas

Que são montanhas de pedra e sem água

Se houve água íamos para beber

Não se pode entre as pedras parar ou pensar

O suor seco e os pés na areia

Se ao menos houvesse água entre as pedras

Boca cariada de montanha morta incapaz de cuspir

Ninguém se pode aqui erguer nem sentar nem deitar

Nem sequer há silêncio nas montanhas

Só o trovão seco e estéril e sem chuva

Nem seque há solidão nas montanhas

Mas rostos vermelhos e ruins zombam e rosnam

às portas de casa de lama ressequida

Se houvesse água

 

E nenhumas pedras

Se houvesse pedras

E água também

E água

Uma nascente

Uma poça entre as pedras

Se ao menos houvesse o som da água

Não o canto da cigarra

E da erva seca

Mas o som da água numa pedra

Onde o tordo-eremita canta nos pinheiros

Drip drop drip drop drop drop drop

Mas não há água

 

Quem é o terceiro que sempre caminha a teu lado?

Quando conto, só estamos tu e eu

Mas quando olho pela estrada branca acima

Há sempre alguém a caminhar junto de ti

Envolto em manto castanho, e embuçado

Não sei se será homem ou mulher

Mas quem é esse do outro lado de ti?

 

Que som é esse a elevar-se no ar

Murmúrio de lamento maternal

Quem são essas hordas embuçadas a alastrar

Em plainos infindos, a tropeçar na terra ressequida

Apenas circundada pelo horizonte raso

Que cidade é essa por cima das montanhas

Que estala e se refaz e estoira no ar violeta

Torres cadentes

Jerusalém Atenas Alexandria

Viena Londres

Irreais

 

Uma mulher esticou os seus cabelos

E tocou música de suspiros nessas cordas

E morcegos com rostos de criança à luz violeta

Assobiaram e bateram as asas

E de cabeça para baixo rastejaram num muro enegrecido

E voltadas ao contrário no ar havia torres

A soar reminiscentes sinos, que davam as horas

E vozes a cantar de dentro de cisternas vazias e poços esgotados.

 

Neste arruinado buraco entre as montanhas

À ténue luz da lua, a erva canta

Sobre túmulos derrubados, em volta da capela

Há a capela vazia, onde só mora o vento.

Não tem janelas, e a porta vai e vem,

Ossos secos são inofensivos.

Só um galo se eleva na viga mestra

Cô cô ricô cô cô ricô

Num clarão de relâmpago. Logo uma rajada húmida

A trazer chuva

 

O Ganga is baixo, e as folhas frouxas

Esperavam a chuva, enquanto as nuvens negras

Se acumulavam longe, sobre o Himavant

A selva encolhia-se, curvada em silêncio

Então falou o trovão

Da

Datta: que foi que nós demos?

Meu amigo, sangue a agitar-me o coração.

A tremenda ousadia de um instante de entrega

Que tempos de prudência jamais revogarão

Foi por isto, e só por isto, que existimos

O que não aparecerá nos nossos necrológios

Ou em memórias vestidas pela caridosa arenha

Ou sob lacres quebrados pelo seco procurador

Nos nossos quartos vazios

Dayadhvam: Eu ouvi a chave

Por uma vez na porta e por uma só vez

 

Nós pensamos na chave, cada um na sua prisão

A pensar na chave, cada um confirma uma prisão

Só ao cair da noite, rumores etéreos

Revivem por um instante um destroçado Coriolano

Da

Damyata: O barco repondeu

Ágil, à mão experiente na vela e no remo

O mar estava calmo, o teu coração teria respondido

Ágil, se convidado, batendo obediente

A mãos conhecedoras

 

Sentei-me na margem

A pescar, com o plaino árido atrás de mim

Hei-de eu ao menos pôr ordem nas minhas terras?

London Bridge está a cair está a cair está a cair

Poi s’ascose nel foco che gli affina

Quando fiam uti chelidon – Ó andorinha andorinha

Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie

Com estes fragmentos escorei as minhas ruínas

Pois então estais arranjados comigo. O Hieronymo ensandeceu de novo

Datta. Dayadhvam. Damyata.

Shantih shantih shantih

 

Espada em rubro, 280×80 cm, 1989-90

ESPADA EM RUBRO - 280X80 cm, 1989-90