Filosofia social para uma sociedade decente

Elementos dispersos de filosofia social para uma sociedade decente

A breve história da existência da «Alternativa» em Almada perturbou os interesses particulares de algumas pessoas, sempre habilidosamente confundidos com o comum interesse público dos cidadãos. Os interesses dos caciques associados ao sector cultural do poder local democrático, como ousa dizer-se, necessitaram de alguma agitação popular de base leninista para provocar a conflitualidade, o desgaste do atrito inspirado na mais do que estafada teoria da luta de classes, para atingir os seus objectivos, porventura semelhantes aos que justificaram o protesto contra os Quartos Encontros Internacionais de Arte, nas Caldas da Rainha, em 1977. Furtando-se ao debate, ao fórum vivo do encontro de ideias, as actividades programadas do festival foram atacadas por agentes provocadores, manipulados a curta distância por elementos com ligação à estrutura local do Partido Comunista Português. Durante as sessões públicas programadas para o debate de ideias com a participação geral do público, esses elementos conjunta e articuladamente incitaram ao confronto verbal das pessoas presentes, à semelhança do que ocorrera em 1977, nas Caldas da Rainha, onde as estruturas locais do Partido Comunista Português ousaram emitir um comunicado contestando a arte que se fazia nos «Encontros», qualificando-a de anti-arte. Em Almada revelou-se mais uma vez a substância de uma ideologia populista, conservadora, que subsiste sedimentada quer em normas sociais quer em atávicos costumes deliquescentes. Em 1983, a actuação destes elementos que se movimentavam na área de influência política do deputado municipal Alexandre Castanheira (autor de Outrar-se ou a longa invenção de mim, Campo de Letras, Porto, 2003; Caixa de Ressonância, Instituto Piaget, Lisboa, 1998), um cacique intelectual formado nas fileiras clandestinas da oposição estalinista à política da ditadura nacional do Estado Novo, visou a luta política interna e, nesse sentido, veio a atingir um membro qualificado da tendência moderada, concretamente o Vereador do Pelouro do Ensino, Cultura, Desporto e Tempos Livres, Eduardo Rodrigues da Costa, fragilizando a posição sensível deste na dinâmica das relações de força que procurava mediar enquanto modo de diálogo e sinal de abertura à sociedade. Terá sido certamente nesta perspectiva que o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Almada patrocinou de 1981-1983 as três edições do Festival. Neste sentido, forças locais heterogéneas tomaram expressão social face à impossibilidade de controlarem em benefício próprio as energias que se activaram com o festival, ou seja, os intelectuais e os artistas afectos à comum ordem das coisas locais não dispunham de instrumentos conceptuais que os ajudassem a assimilar a «Alternativa» às suas interpretações de carácter político-social. O modo de trabalho político enraizado nas suas concepções leninistas da organização não lhes permitia a alteridade radical proposta pelos projectos dos artistas que se apresentavam no contexto do festival. Essas forças foram então conduzidas no sentido de prefigurarem um delta no campo da acção política confluindo para o domínio da estrutura local do Partido Comunista Português: a organização interna e a sua correlação com o governo da cidade. É um momento de mudança que veio a reflectir-se nas opções tomadas em matéria de trabalho político no plano autárquico. Entretanto, foi renovado o elenco da equipa que viria a constituir a imagem de marca dos candidatos autárquicos que até hoje dominam completamente a cidade. Numa primeira análise são detectados vectores afectos a diversos agentes que actuam confluindo ocasionalmente com interesses que se inscrevem nas suas próprias carreiras pessoais. Considere-se desde logo o caso de encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, Joaquim Benite (1943-2012, Medalha de Ouro da cidade) veterano compagnon de route do Partido Comunista Português, profissional oriundo do jornalismo. Da sua biografia publicada consta, entre outras preciosidades, que em 1969 foi membro da comissão política nacional da Comissão Democrática Nacional da CDE, intelectual de elevado gabarito que no pós-25 de Abril acompanhou o Presidente Costa Gomes nas viagens à Polónia e à URSS e os primeiros ministros de Portugal Palma Carlos e Vasco Gonçalves às conferências da NATO em Bruxelas, durante o período designado por processo revolucionário em curso (PREC). Paralelamente, realce-se o aspecto cultural da sua intervenção pública no domínio da arte da encenação, enredada em estratagemas de manipulação social, realmente mais comprometida com a maior farsa política do século XX: a manipulação cultural dos símbolos ao serviço da propaganda internacional para a defesa da tese do «socialismo num só país». Será também o caso do Director do Centro de Arte Contemporânea, em Almada, o pintor Rogério Ribeiro (1930-2008, Medalha de Ouro da cidade) formado intelectualmente no crisol das ideias do movimento neo-realista, e que nos anos 80 foi projectado pelas estruturas centralizadas do Partido Comunista Português para o trabalho autárquico em Almada. No nosso entender, o projecto do crítico de arte plásticas Egídio Álvaro na intersecção activa destas forças constituiu-se como o elemento a erradicar, significando isso a inviabilidade do projecto mobilizado pelo festival. Entretanto, o grupo de Teatro de Campolide, na época sedeado temporariamente nas instalações da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense (AIRFA) desde 1978, passa a designar-se Companhia de Teatro de Almada e inicia o processo de profissionalização enquanto companhia residente. Sendo a jóia da coroa da autarquia, contribuindo virtualmente para o equilíbrio das finanças locais, a «Companhia» conformou-se a subsistir no estado periclitante da dependência… (ainda hoje é suportada com o financiamento público da administração local e central). O triunfo da representação, ou seja, da acção teatral enquanto pedagogia para a conformidade cívica da população, revela-se em indicadores como a abstenção de perto de 60% dos eleitores inscritos (174.000 habitantes) nas eleições para os órgãos locais. E não terá sido por acaso que o início do Festival de Teatro de Almada, em 1984, no quadro da política cultural desenvolvida pelo poder local, tenha coincidido com a inviabilização da «Alternativa».

Performance Sono e Vigilia ao Despertar da Arte, parte I

Performance Sono e Vigilia ao Despertar da Arte, parte I

Performance Sono e Vigilia ao Despertar da Arte, parte II

3 Performance Sono e Vigilia ao Despertar da Arte, Parte II

6 Performance Sono e Vigilia ao Despertar da Arte, Parte II

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