Como fazer o pino ao contrário…

Como fazer o pino ao contrário… mantendo a cabeça para cima

O artista plástico Alberto Gordilho, fundador e director artístico, em 1973, da Galeria de arte contemporânea Gordilho, sito na rua Nova de São Mamede, em Lisboa, ao longo dos anos consolidou uma estreita relação de amizade com o crítico de arte Egídio Álvaro, radicado em Paris a partir dos anos 60. A Galeria de Arte Gordilho, mais tarde passando a designar-se Galeria Tempo, disponibilizou em várias ocasiões os seus espaços expositivos no sentido de promover algumas iniciativas públicas que aquele crítico de arte pretendia realizar em Lisboa, nomeadamente, a exposição de pintura que enquadrava a análise e a discussão da posição de Pierre Restany sobre o Novo Realismo Europeu. Não obstante algumas dificuldades e desafios que se compreendiam nas condições gerais da época, como seja o caso do processo revolucionário em curso (PREC), o joalheiro Alberto Gordilho, entre os anos de 1974 e 1997, manteve com a normal regularidade da sua actividade artística um atelier que ficava localizado na praceta Minerva, em Almada, muito próximo da Escola Secundária Emídio Navarro. Foi no período que Egídio Álvaro visitou Lisboa, em 1980, em frequentes encontros pessoais com os artistas, que foi alvitrado ao principal organizador dos Festivais Internacionais de Arte que estabelecesse contacto com o município de Almada, pois este poderia considerar a viabilização de uma proposta com semelhantes características. Na verdade, foi por intermediação directa do meu irmão Alberto Gordilho que se prepararam as primeiras conversações com a administração local, tendo em vista o interesse que representava para aquela cidade a apresentação do projecto do Festival Internacional de Arte Viva. De facto, as primeiras impressões sobre a validade da iniciativa vieram a confirmar-se, e a convergência de interesses entre ambas as partes permitiu a realização da primeira edição do Festival de Arte Viva, Alternativa 1, assim como das duas edições seguintes. Talvez seja importante afirmar, neste contexto, para dissipar susceptíveis dúvidas que futuramente poderão ser colocadas, que houve episódios bizarros que se prenderam com a minha efectiva participação neste evento. Ora, encontrando-me no meu território e com a capacidade de abranger um largo número de pessoas interessadas nos acontecimentos artísticos que o festival promovia, resolvi apresentar um projecto que envolvesse públicos considerados menos receptivos à arte contemporânea. Assim, o meu propósito mudou as condições de apresentação do festival que se encontravam restritas aos espaços da Oficina da Cultura, da Escola Conde de Ferreira e áreas limítrofes. A intervenção que propus iria concretizar-se na Cova da Piedade, na zona próxima do edifício que, entretanto, recebia obras de adaptação a fim de albergar o que viria a ser o Café do Ferrador, mais tarde inaugurado, ainda em 1981. Neste primeiro momento, o projecto artístico que apresentei no contexto da primeira edição do Festival, sem pressa em me pôr em bicos de pés, decorreu dentro das expectativas que tracei. Em relação quer à organização do festival quer à instituição com competência para assegurar as condições de segurança de qualquer manifestação pública, os vários aspectos do projecto foram abordados em contactos antecipados. No entanto, como o dia da apresentação aconteceu num domingo, a organização e os artistas mudaram-se para a praia. O facto é compreensível… pois a maioria daqueles aproveitou as suas viagens ao sul da Europa para usufruir o prazer oferecido pelo nosso mar salgado. Em suma, não foi uma performance que passou ao lado do festival (off), era o modelo conceptual dos Encontros Internacionais de Arte, já anteriormente apresentados em várias localidades do norte do país, que eu aqui processava com consequências imprevisíveis. Finalmente, de acordo com o crítico de arte Egídio Álvaro, tratei pessoalmente dos créditos informativos sobre a performance Melk Straat apresentada em espaço público (Avenida António José Gomes), Cova da Piedade, tendo os elementos fotográficos solicitados pela organização do festival sido entregues directamente ao senhor Raúl Madeira, responsável e chefe impressor da gráfica municipal. Ora, estes não foram incluídos no catálogo produzido pelo Festival Internacional Arte Viva, Alternativa 1, Almada, em 1981. Depois de terminado o evento, Egídio Álvaro retirou-se para Paris. Assim sendo, a coordenação da produção gráfica do catálogo do festival coube ao seu colaborador o performer Manoel Barbosa. Estes mágicos truques à «Mandrake» bastam para demonstrar como foi difícil criar uma existência para a Performance Arte fora dos efeitos cénicos negando todas as suas limitações por meio de uma filosofia social para se contornar as questões que a confinavam a ser acessível apenas a alguns. Na época, paralelamente à prática artística, na gíria das artes, subsistia uma tendência cultural vertida a pontificar uma distanciação elitista, a qual uns classificaram de arte actual, quando outros insistiam em a definir como vanguarda. No essencial, tais personagens arrogavam-se de um itinerário histórico respeitoso, uma herança feita de muito nervo e de tantas aventuras intelectuais. Talvez seja esta a explicação para a uniformidade das suas roupas brancas e as suas ridículas exibições que arrastavam uma postura ambiciosamente neutra, mas pelo contrário sempre disponíveis para servirem os interesses do poder político. Uma geração pseudo cosmopolita, quase atravancada pela inércia do seu imobilismo. E como tal pretendiam insuflar no público um impacto que contrariava qualquer dinâmica social que estimulasse uma identificação ou um sentimento de afinidade com o espírito de mudança.

Catálogo Festival Internacional de Arte Viva, Alternativa 1, 1981, Almada

Catálogo Festival Internacional de Arte Viva, Alternativa 1

Performance Melk Straat

1 PERFORMANCE MELK STRAAT

 2 PERFORMANCE MELK STRAAT

3 PERFORMANCE MELK STRAAT

Texto Manoel Barbosa Criador do «happening» no Centro de Arte Moderna,in O Jornal, p. 32, 12.04.1985 pdf

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