15 + 48 = 63: recomeçar!

Carlos Gordilho, 1970

CIPRIANO DOURADO 1

Esta fotografia foi registada na Espiral Agência de Publicidade, em 1970, Lisboa, pelo artista plástico neo-realista Cipriano Dourado (1921-81). Eu contava, portanto, com quinze anos de idade. A imagem é o pretexto para referir que até não foi difícil, contextualizando as coisas, manter as convicções libertárias cuja precedência tem origem num tempo e em acontecimentos que, determinando a minha experiência pessoal enquanto jovem trabalhador, deram animo aos objectivos e abriram profundos sulcos na vida consciente que se esboçou nestes últimos 48 anos (1970-2018). Seja como for, apesar de cada indivíduo supor que lhe está reservado um destino, dentro de uma certa amplitude, no fundo subsisti sob uma violenta corrente de contrariedades que intentaram acabar realmente com o espaço da minha frágil actividade artística. Quer em Almada, quer em Paris, atravessei o deserto abrasador. Mas esse mundo que vi apresentado em muitas faces, quer em Amesterdão, quer em São Francisco, viu como passageiro completamente agarrado ao ponto de referência da memória, ou seja, ao não esquecimento dos 48 anos de resistência que constitui uma utilíssima carta cívica que vai além da forma política que permitiu reagir em oposição à absurda normalidade da Ditadura Nacional do Estado Novo.

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Da miscelânea pseuda-libertária… à devida réplica anarquista

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Lenine, Rosa Luxemburgo e o Anarquismo

Lenine e Engels, por conseguinte, não são um filão inesgotável de “libertarismo”, nem na fase juvenil, nem na longa etapa madura, nem na curta fase terminal, em que, passada a borrasca, se reacenderam imediatamente os velhos tiques e vícios. É o mínimo que se possa dizer a seu desfavor. “A Guerra Civil em França” não salva o seu sistema, tal como Lenine não fica reabilitado aos olhos de ninguém lá por ter escrito “O Estado E A Revolução” entre as revoluções de Fevereiro e Outubro de 1917, onde proclamava, contrariado que o anarquismo, com o seu antiparlamentarismo, tinha sido a única corrente revolucionária que não sucumbira ao “charme” do oportunismo, mas que tal fora possibilitado pela demissão reformista dos partidos socialistas de 2ª Internacional. Quer dizer: a atitude digna e a prática consequente tinham ficado a dever-se não ao mérito intrínseco do anarquismo, dado que este por definição nunca tem qualquer mérito, mas, por contraste, ao demérito dos camaradas e colegas da social-democracia e do socialismo parlamentar! Logo a seguir no mesmo livro, Lenine socorria-se de todas as citações operacionais de Marx e Engels sobre a “ditadura do Proletariado”, que ele tão bem aplicaria, vistas as condições objectivas… Está-se, pois, a ver por que poderosa razão dizer-se, como Daniel Guérin, que Lenine nessa altura hesitava entre anarquismo e marxismo, é manifestamente um exagero, tal como é hiperbólico e mentiroso falar-se de qualquer contributo de Marx à liberdade sem peias nem açaime. O que se pode lamentar é que Lenine tenha conseguido ludibriar alguns anarquistas como Victor Serge, convencendo-o de que o despotismo que se seguiria, de facto seria reduzido ao mínimo e de curta duração…

Outro caso muito sério dos tradicionais paternalismo, sobranceria e velhacaria do marxismo em relação ao anarquismo – e tantos mais poderia ir buscar, situados na extrema ou “ultra-esquerda” – é evidentemente o de Rosa Luxemburgo, por muitos considerada como a única que “abriu o marxismo sobra a sua própria problemática” (Henri Lefévre), uma das mais sérias críticas da concepção leninista de partido político, a defensora por excelência da autonomia operária e da espontaneidade revolucionária das massas, e muito provavelmente o elo que faltava à síntese entre anarquismo e marxismo, ambos superados numa síntese superior e claramente marxista, a que se chamaria “marxismo libertário”.

Como estou um bocado farto de literatura em geral, e particularmente de literatura para crianças, incluindo os poemas épicos celebrados em verso heróico, acho muito bem que a senhora em causa – que foi presa, torturada e assassinada pela social-democracia alemã – tenha tirado o marxismo do claustro onde asfixiava e o tenha trazido para o século para arejar o cadáver, contribuindo para o que o marxismo se abrisse ao mundo e o mundo ao marxismo. Problema dela, problema do marxismo. Agora o que considero intolerável é que se torture os textos e se faça Rosa Luxemburgo dizer aquilo que não disse, ou seja, se pretenda que ela alguma vez nutriu a mais pequena simpatia pelo anarquismo. Discípula de Marx e Engels, pode ter criticado o centralismo e o “substitucionismo” leninistas (o Partido no lugar das massas, O Comité Central no lugar do Partido, o Secretário-Geral no lugar do Comité Central, etc.), como Trotsky a dada altura também faria (As Nossas Tarefas Políticas), mas nunca atacou com uma verdadeira acuidade e sensibilidade libertárias o fenómeno partidário em si, fenómeno e forma organizativa bons para as classes dominantes, mas impróprios para consumo das classes exploradas, se não se perder de vista que qualquer partido é sempre um pequeno Estado dentro do Estado. Um dos seus livro-chave, “Greve De Massas, Partido E Sindicatos”, fala, aliás, de partido no singular, “o” Partido, e de sindicatos no plural. Falsificando e tentando ridicularizar a acção e o pensamento libertários, eis como ela escrevia, na senda de Engels, nesse livro recheado de ataques ao anarquismo, ao sindicalismo revolucionário e a Bakunine: “A greve geral é, no programa de Bakunine, a alavanca que serve para desencadear a revolução social. Numa bela manhã, todos os operários de todas as empresas de um país ou até do mundo inteiro abandonam o trabalho, obrigando assim, em quatro semanas no máximo, as classe possidentes, quer a capitular, quer a atacar os operários, de tal maneira que estes teriam o direito de se defender e, aproveitando o ensejo, de abater a velha sociedade inteira.” Parecia o sofisma do velho Engels sobre a greve geral: ou a greve se generaliza efectivamente e já não havia necessidade da greve geral; ou não chegava a esse ponto e então a greve já não era geral. Pobre Rosa!, nunca deve ter ouvido falar de uma greve geral passiva que passa à fase activa, ocupando os trabalhadores os locais de trabalho e organizando a produção e a distribuição, como aconteceu no começo da Guerra Civil Espanhola, em 1936, quando os sindicatos anarquistas responderam à sublevação fascista; ou como podia ter acontecido em França, em Maio de 1968, se os operários não tivessem ocupado as fábricas de braços cruzados…

Como a greve geral não satisfazia a exigente senhora, porque demasiado anarco-qualquer coisa, havia de opor-lhe a “greve de massas”, definida de uma maneira que tresanda a impostura intelectual: “Assim a dialéctica da história, o alicerce de rocha sobre o qual se apoia toda a doutrina de socialismo marxista, teve como resultado que o anarquismo, ao qual a ideia de greve de massas estava indissoluvelmente ligada, entrasse em contradição com a prática da própria greve de massas; em compensação, a greve de massas, outrora combatida como contrária à acção política do proletariado, aparece hoje como a arma mais poderosa d luta política para a conquista dos direitos políticos.” Maravilhosa dialéctica de vigaristas e dos trampolineiros, dos habilidosos e dos espertalhões, que perdoa todos os erros, dislates e traições dos seus proprietários, porque “do erro nasce a verdade” e “o que se afirma, pode negar-se”: os anarquistas, porque tiveram razão antes do tempo, perderam-na toda, nunca chegando ao fim e ao cabo a tê-la em tempo algum, nem a vir a tê-la num horizonte temporal tangível, e a greve de massas, a que pareciam estar indissoluvelmente ligados, virou-se contra eles, a ingrata, e pôs-se ao serviço da social-democracia alemã, uma vez que, de uma vez por todas, todas as greves, parciais ou gerais, espontâneas ou com pré-aviso, são políticas, incluindo as meramente reivindicativas ou económicas! Como dizia Rosa Luxemburgo, no mesmíssimo livrinho: “A social-democracia é a vanguarda mais esclarecida e mais consciente do proletariado.”

E eis o que ela pensava dos anarquistas russos, durante a revolução de 1905, o ensaio geral para as duas revoluções de 1917: “Qual o papel desempenhado pelo anarquismo na revolução russa? Passou a ser a insígnia de vulgares ladrões e saqueadores: foi sob a forma de livro de facturas do “anarco-comunismo” que foi cometida grande parte desses inúmeros roubos e extorsões em casas de particulares, que, em cada período de repressão, de refluxo momentâneo da revolução, fazem estragos. O anarquismo na revolução russa não é a teoria do proletariado militante, mas a insígnia ideológica do “lupenproletariat” contra-revolucionário que se lança como um cardume de tubarões na esteira do barco de guerra da revolução. E é assim que sem dúvida acaba a carreira histórica do anarquismo.” Depois desta singela amostra repassada de má-fé, quem se atreve ainda a apregoar as virtudes curativas do “marxismo libertário” ou a propor a síntese altaneira entre anarquismo e marxismo?!

Carrapato, Júlio, Novas Crónicas Bem Dispostas E Uma Réplica Muito Comprida, Edições Sotavento, Faro, 2005, pp. 158-161

Correia Pires, um caso de exemplarismo ético e acrático

Edição, 1975

TARRAFAL

Edição, 1975

José Correia Pires a revolução social e sua interpretação anarquista_large

José Correia Pires

CORREIA PIRES

Encontro de confraternização da velha guarda anarcosindicalista, em 1º de Maio de 1974, restaurante Canecão, em Cacilhas: à esquerda da imagem Sebastião de Almeida, à direita  Emídio Santana e Francisco Quintal. Registo fotográfico de Eurico Marques.

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O editor Lyon de Castro, em 1974, furtou parte da obra inédita do tarrafalista Correia Pires.

1. Este episódio parece sem importância mas deu-se quando em determinado momento, em 1974, o Correia Pires resolveu ir entregar pessoalmente um texto original. Nesse dia fui com ele, circunstância que era frequente quando o Correia Pires se deslocava para se reunir com alguém ou estabelecer contactos que se tinham de estabelecer relacionados com o Movimento Libertário Português, delegação de Almada. Chamando-me para o acompanhar e, digamos, para garantir a minha aprendizagem a fim de eu próprio poder compulsar a situação, porque me dizia que era necessário responder imediatamente ao que se passava na altura, de modo que após a refeição do almoço partimos de Almada e fizemos a travessia do Tejo. Daqui a Campo de Ourique foi um salto que fizemos de carro eléctrico. Estávamos, como disse, em Lisboa, embora fosse um recém-chegado ao Movimento e a minha experiência muito limitada, era eu que levava a pasta contendo o manuscrito dactilografado a azul do antigo militante Confederal. Após o toque da campainha para paragem, saímos do carro eléctrico precisamente na Rua Saraiva de Carvalho, onde se localizava o escritório do editor Lyon de Castro. O homem esperava o Correia Pires, conheciam-se desde há longo tempo, naturalmente fomos recebidos com a devida cortesia e os cumprimentos adequados. Lembro-me que a conversa se desenrolou de modo afável e um espírito entusiasmante, pois os resistentes à Ditadura Nacional Do Estado Novo, ainda, permaneciam numa espécie de boda celebrativa do golpe militar de 25 de Abril. O Correia Pires entregou-lhe o texto original na condição do editor das Publicações Europa-América se prestar a lê-lo primeiramente, prometendo este considerar a proposta do autor em editar a obra; (mais tarde vim a saber que o Correia Pires não tinha utilizado papel químico para ter produzido uma cópia dactilografada do texto). Devo dizer que após esse encontro, os dias iam-se passando na expectativa, o Correia Pires esperava de forma estóica uma resposta que demorou meses a chegar. Mas depois do telefonema que fez perguntando se já dispunham de alguma coisa preparada, o Lyon de Castro aproveitou para responder, reagindo à solicitação dizendo que o momento não era oportuno para publicar o livro Memórias de Um Prisioneiro do Tarrafal. Entretanto, envolto num subscrito o manuscrito foi devolvido ao autor por via postal. Um dia chegou à mão do Correia Pires que ao o manusear verificou que o Lyon de Castro tinha subtraído ao conjunto das páginas a secção em que o antigo militante anarcosindicalista reportava as polémicas mantidas no campo do Tarrafal com o dirigente comunista Bento Gonçalves. Lembro-me muito bem que foi um daqueles valentes murros que o nosso companheiro recebeu, mas nem por isso saiu perturbado.

2. Convivi nesse tempo por convicção muito com ele. Numa das muitas noites em que nos encontrámos, o Correia Pires pretendia dar-me a orientação pormenorizada de todos os elementos que constituíam o Campo do Tarrafal, no sentido de eu melhor poder verter por imagens desenhadas a sua descrição. É justo dizer que não duvidava do seu propósito de utilizar as ilustrações no seu livro Memórias de Um Prisioneiro do Tarrafal. Curioso é que no meio disto, eu não sentia naturalmente uma disposição para esse tipo de trabalho ilustrativo, pois nunca me interessara essa expressão comunicativa. Na época os meus interesses artísticos visavam o construtivismo europeu, em particular uma das suas vertentes reducionistas. Eu estava num impasse, ainda assim elaborei algumas notas a partir das suas observações. Estávamos, então, no café e pastelaria Condestável, bem próximo da Praceta D. Leonor de Mascarenhas, onde o Correia Pires residia no nº47, r/c direito, quando nesse momento surge o Henrique Mourato, este morava nas Torcatas numa zona não muito distante da habitação do Correia Pires, que prontamente se dirigiu a mim para me cumprimentar. O Mourato era um jovem artista plástico almadense que conheci através de relações familiares. Foi com a sua aproximação e depois de transposta as impressões do primeiro contacto, com uma certa habilidade que aproveitei o dinamismo e o interesse deste para imediatamente o recomendar, como um profissional capaz da execução das ilustrações para a capa e miolo do livro, e desta maneira pude desenvencilhar-me da encomenda do Correia Pires.

3. Como hoje se compreende, um documento de muito interesse foi delapidado de maneira que nunca poderia passar pela cabeça do nosso companheiro Correia Pires. De qualquer modo, o autor de Memórias de um Prisioneiro do Tarrafal, percebendo a importância deste facto, contornando a expressão de intolerância daqueles que sofriam a influência do Partido Comunista Português, afluiu com fina sensibilidade como que antecipando o tema da preservação da memória e simplesmente não rasurou no seu texto inédito as palavras que a isso dissesse respeito: “Falando um dia com o editor Leon de Castro disse-me que a história de um museu do Tarrafal era coisa que lhe pesava no espírito. A ideia sensibilizou-me, considero isso hoje difícil, senão impossível, dado os anos e o desaparecimento de quase toda a gente e dessas coisas. Além, disso era difícil sair-se do Campo com alguma coisa e em oito anos que ali estive não foi possível uma fotografia.” Pires, José Correia, Memórias de Um Prisioneiro do Tarrafal, Edições Déagá, Lisboa, 1975, pp-176-177.

Carlos Gordilho

 

DEPORTADOS 6

Um grupo de deportados junto ao monumento erigido no Campo do Tarrafal, em homenagem ao Chefe de Estado Óscar Carmona, aquando da sua visita ao arquipélago de Cabo Verde, onde desembarcou em São Vicente no dia 24 de Junho de 1939. O busto em bronze foi fundido com o préstimo voluntário do dirigente comunista Bento Gonçalves.

Memória flutuante do anarquismo

ACÇÃO DIRECTA 6

(Crítica radical do valor, da economia inglesa clássica e do marxismo)

O SALARIATO

Tradução: António Mota, edição revista anarquista Acção Directa, Março de 1976

 

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O perfil do infatigável companheiro António Mota

(…) “o Antonio Mota, ex-estudante do Instituto Superior Técnico (Engenharia Mecânica) e ex-animador das lutas académicas, que só partira para Paris nesse ano, já depois do Gabriel lá estar. Nesse tempo, após uma breve passagem pelo maoísmo, itinerário normalmente seguido pelos dissidentes do PCP (caso de Gabriel), ambos ainda andavam nas margens do “marxismo libertário” ou da “ultra-esquerda”, vagamente agarrados a um conselhismo à Pannekoek ou ao aparente espontaneísmo luxemburguista. Quer dizer, já tinham ultrapassado o leninismo, o trotskismo e mais ainda o stalinismo, correntes cruzadas e complementares do mito bolchevique, que tantos estragos fizera no campo revolucionário internacional, mas ainda não tinham ajustado definitivamente as contas com o mito marxista. Fá-lo-iam pouco depois, atirando todo esse lastro inibidor por cima da amurada, separando claramente as águas, fazendo-se ao largo e aderindo sem reservas ao anarquismo, à sua tradição e à sua ética.”

Júlio Carrapato, texto extraído da edição de outubro 2005 da revista “Algarve Mais”

Nessa sequência… ambos colaborámos com outros mais companheiros à volta da criação da Associação de Grupos Autónomos Anarquistas. E, como o meu grupo (Jorge Mota Prego, Rui Vaz de Carvalho, Paco, Jaimer, Paloma e Xavier) há bem pouco tempo passara a dispor de um modesto equipamento técnico para a impressão gráfica, que utilizávamos para apoiar a actividade interventiva de múltiplos colectivos, logo decidimos colaborar naquilo que fosse necessário para levar a bom termo o trabalho de produção do Boletim da Associação. Um pouco mais tarde, aquando da minha detenção na vila do Barreiro, no dito “verão quente”, acompanhado por dois companheiros espanhóis e um chileno (Paco, Garcia e o Rivera), sendo que permaneci durante largos meses aprisionado no estabelecimento prisional do Monsanto, aonde o Estado manteve neutralizado um grupo aparentemente incontrolável de anarquistas, impedindo a implementação de determinadas actividades articuladas com a resistência libertária e anti-franquista. Nessa situação o António Mota e a Céu visitaram-me, fazendo partilhar através do seu relato a possível aproximação ao contexto vivencial decorrente do assalto à Embaixada de Espanha. Na circunstância demonstrando que a ética anarquista é efectiva e que quando plenamente vivida pode funcionar na activação da solidariedade para a acção. Quando fiquei livre do forte do Monsanto, estávamos ainda no ano de 1976 e, por algumas vezes, voltei com o António Mota a reincidir no plano colaborativo pendente do trabalho executivo relacionado com a edição da revista Acção Directa. Lembro-me hoje com alguma precisão, da casa em Rio de Mouro, da tarefa manual de separar as folhas das resmas, o que para o efeito, durante noites completas batíamos sobre uma mesa as muitas resmas de papel, quase sempre absorvidos pelos ensurdecedores ruídos do policopiador automático ou em redor do gravador electrónico de stencil. Isto aconteceu antes da minha partida forçada para o estrangeiro. De facto, foi uma apressada saída, portanto, a viagem significou uma espécie de ruptura com o meio e as actividades desenvolvidas  por nós … aqueles que no movimento libertário previligiaram os métodos da acção directa. Na realidade, não foi por minha vontade nem por meu gosto que passei à invisível clandestinidade da “cena”, tal aconteceu porque o 3º Tribunal Militar Territorial de Lisboa se mostrara intolorante a corrigir os excessos “revolucionários”, fazendo da arraia-miúda um bode expiatório do Poder (fortes com os fracos e fracos com os fortes), um finca-pé autoritário no cumprimento das suas prerrogativas jurídicas, como tal entendeu mandar as forças policiais capturarem-me. No período em que estive preso (1975-76), alguns elementos que compunham os diversos grupos anarquistas concentraram-se num núcleo coeso (António Mota, Gabriel Morato, Júlio Carrapato, João Guerreiro, Jorge Mota Prego, Rui Vaz de Carvalho e Paulo Ferreira) aos quais se juntaram alternadamente alguns mais elementos. Foi um grupo anarquista no seu tempo que alcançou alguma evidencia, um circulo de indivíduos por onde passava uma corrente feita de amizade pessoais e a imprescindível componente afinitária. O título “Acção Directa” que veio a ser adoptado para a publicação surgiu no momento em que permaneci preso no Monsanto, isso através de uma proposta do Rui Vaz de Carvalho; por conseguinte, não fui influente na tomada de decisão. Na verdade, em 1974, por minha própria iniciativa, tive a ideia de criar um cartaz vincadamente gráfico e, consequentemente, levei esse projecto para ser  executado num atelier em Lisboa que pertencia a um dos meus irmãos. A pequena edição foi uma oferta do atelier, imprimiram 75 exemplares pelo processo serigráfico, apenas com uma cor, isto é, preto mate.  Os cartazes Acção Directa – Publicação Anarquista”, pretendiam comunicar visualmente a trajectória do nosso projecto social, eram como um instrumento identificador de uma intencionalidade, tanto assim que marcavam um espaço de intervenção inequívoco, ostentando uma enorme letra “a” em estilo new roman. Inicialmente, julguei que a sua utilidade seria destiná-los a eventuais companheiros que pretendessem produzir uma revista anarquista. Assim, terá sido por um processo dinâmico que se começou horizontalmente a engendrar o grupo editor da revista Acção Directa, aí, todos eram activistas de base, insubmissos sem quaisquer peneiras e outros arrivismos próprios da sociedade classista ou dúbias pretensões pessoais a dirigir a luta dos outros oprimidos… pessoas revoltadas que emergiram fora do rebanho das seitas folclóricas da política. Um punhado de uns tantos anarquistas de que me orgulho ter conhecido e sido cúmplice.

Carlos Gordilho

 

Reprodução não fac-similada do original; cartaz “Acção Directa  Publicação Anarquista”

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Capa do Boletim da Associação

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Capas da revista anarquista Acção Directa

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A propósito da Ideia

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Anarquismo em Portugal (1974-2004): conclusão provisória

 

José de Brito

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UTOPIA

 

Observação: O texto do autor José Tavares, agora reeditado corresponde à edição nº5 das publicações Pandora. O mesmo texto foi inicialmente publicado na revista Utopia, nº17, pp. 35-40, 2004.

A nota (1) a propósito da celebração da famosa efeméride do 1º de Maio, refere a realização na Cooperativa Almadense de um comício em Almada. De facto, o que se realizou foi um encontro de anarquistas no restaurante Canecão, em Cacilhas. Feito a devida ressalva, ainda temos de acrescentar que existem registos fotográficos, obtidos pelo farmaceutico senhor Eurico Marques, do momento dessa confraternização no 1º de Maio de 1974 em Almada,  onde se reuniram os antigos militantes da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central anarcosindicalista que se opôs, nos anos 30 do século passado, à fascização em Portugal dos sindicatos.

 

Folheto editado conjuntamente por José de Brito e a revista “A Ideia”, 1985

ZÉ BAREMBÉ

“Por último, umas palavras de agradecimento para o Zé de Brito. Este cavaleiro andante da anarquia foi o melhor exemplo de como se pode viver pensando e agindo como anarquista, foi herético e contraditório, mas também por isso não deixou de ser um homem que quis ser sujeito da história e quis que todos os outros pudessem viver nua sociedade sem amos nem deuses.”

Editorial da Utopia, in Revista Anarquista de Cultura e Intervenção, nº 4, 1996.

Em memória do “Beat da Bica”

Para nós o facto importante não é mostrar os êxitos do José de Brito, que no seu tempo terá sido um comerciante bem sucedido no mercado, adaptado à sociedade com estabelecimentos na Praça da Figueira ou no Guincho, em Cascais. O problema é principalmente encontrar uma solução que preserve o que se considera ser o anarquismo sem perder-mos de vista a complexidade adversa que está naturalmente espelhada na sua biografia. Um elemento essencial completamente ignorado por todos os companheiros que o circundaram, receptivos à questão social colocada pela perspectiva anarquista, é a sua ligação à figura cimeira da Ditadura Nacional do Estado Novo, o contra-almirante Henrique Tenreiro, com origem numa sociedade comercial vocacionada para o negócio de pescados e mariscos.

Carlos Gordilho

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http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218729406D7rDD2xe0Dy51UR4.pdf

A cada interveniente a “comédia” que lhe pertence …

Júlio Carrapato

CARRAPATO CHARUTO

 

J. FREIRE CAPA

 

Lembro, muito bem! Os traços da figura afável do Correia Pires que se mostrava bem atento às propostas apresentadas pelos companheir@s e eu mesmo um jovem antimilitarista, há bem pouco tempo chegado de Amesterdão, de forma a iniciar o convivio com os anarquistas de Lisboa, conforme a circunstância e beneficiando momentaneamente da experiência pessoal acumulada do velho resistente anarquista.

Era a aproximação de duas gerações do movimento acrata desligadas temporalmente que procuraram no contexto social do pós 25 de Abril encontrarem-se mutuamente.

Tratava-se do relançamento do ideal libertário no espaço público. Neste âmbito, enquanto delegados do Grupo de Cultura e Acção Libertária de Almada (Delegação do Movimento Libertário Português), a nossa justificada presença não foi displiciente durante a  primeira reunião no casarão da “Angelina Vidal”, em Lisboa – apesar de já existirem em determinados planos algumas reservas sensíveis -, tendo em vista a constituição da cooperativa editora “A Batalha”.

E se na Assembleia estiveram presentes vários libertários da velha guarda anarcosindicalista, entre aqueles, lá estavam de visita o João Freire e a sua companheira Graça vindos de Paris. A impressão que ainda hoje guardo dessa situação não é nada anódina, pois o homem  movia-se com um tal à vontade pelo imenso espaço da casa que permitia  a qualquer pessoa descortinar imediatamente que ele se encontrava em ambiente familiar.

Na perspectiva de um jovem atingindo pela veemência do movimento krakers de Amesterdão, o conjunto da “cena” representada parecia ser um tanto ou quanto ridícula,  visto que o João Freire passeava tal como um pavão perante uma assistência de credíveis e incautos espectadores, ostentando o seu grande papillon negro à volta do colarinho, à maneira dos antecedores anarquistas do século XIX. Uma espécie de pastiche mal mastigado e de sentido estético obviamente duvidoso, como que pretendendo inculcar na personagem uma imagem de falsa ou precipitada pertença histórica.

Enfim, diga-se, que  alguns anos mais tarde a encenação irá repetir-se, porquanto, é o que o próprio João Freire afirma; “(…) passei a “encenar” com cuidado a minha apresentação e postura física nas aulas: por exemplo, desde então, nunca mais dei uma aula sem ser de casaco e gravata”.

Carlos Gordilho

 

Resposta bem-humorada ao professor doutor João freire

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Da normatividade ao lugar incómodo da rebelião anarquista

GORDILHO 1993

SENHORES PROPAGANDISTAS DA BANHA DE COBRA … ATENÇÃO! OS INTERESSES DO CENTRO DE CULTURA LIBERTÁRIA FORAM LESADOS.

Estimado  Companheiro,

Carlos Júlio.

Publicou o Portal Anarquista há bem poucos dias no Facebook uma peculiar nota de reconhecimento tilintante rasgando elogios ao senhor João Freire, dando conta do porte de grande anarquista que em todo o caso, tal senhor nunca foi merecedor em nenhum momento.

Primeiro, vamos directamente ao assunto que hoje nos interessa: o Centro de Cultura Libertária, doravante CCL, foi no processo de constituição do Arquivo Histórico-Social muito prejudicado. É afirmado pelo próprio João Freire nas suas memórias «Pessoa comum no seu tempo», p. 471, que o Centro de Estudos Libertários acolheu a «doação de espólios documentais por parte de antigos militantes libertários ou seus descendentes». Daí nunca referir claramente nem sequer de modo discreto a sua iniciativa para obter os documentos existentes no fundo documental do CCL. Ora, quanto a este assunto reina o silêncio absoluto, mais parece ter o homem recalcado a tendência do seu comportamento para vasculhar arquivos.

Os fundamentos da minha denúncia prendem-se com os actos delituosos praticados por João Freire. Sublinhe-se que na altura os mentores do Centro de Estudos Libertários chegaram a elaborar no CCL um rastreio onde constavam 270 obras literárias, presume-se em conluio com os técnicos do designado Arquivo Histórico-Social e/ou a mando deste famoso académico «anarquista».

Na verdade, foi na Assembleia Geral de sócios do CCL, realizada a cinco de Janeiro de 1985, consultar a Acta número 9, folhas 29/30, que a questão do Arquivo Histórico-Social foi introduzida ad hoc na ordem de trabalhos desta reunião e, pela primeira vez, levantada através do senhor Carlos Reis, «devido ao facto do companheiro João Freire, mais dentro do assunto, ainda não ter chegado.» Finalmente, para se perceber hoje a habilidade implicada nos procedimentos do académico «anarquista» João Freire, mandante do senhor Carlos Reis, passo a transcrever parte da Acta número 9: «Finalmente no ponto seis, não tendo comparecido o companheiro João Freire, prestou-se o companheiro Carlos Reis a informar a assembleia da situação do Arquivo Histórico-Social e de uma proposta para cedência mútua de (ob) digo, exemplares de livros e periódicos constantes das duas bibliotecas, proposta que foi aceite unanimemente.»

O senhor João Freire, alegando o seu interesse ao estudo, na altura apoderou-se de documentos pertencentes ao espólio histórico do CCL, Associação Libertária com sede em Almada. De facto, em nenhuma circunstância conforme é possível analisar nos papeis oficiais do CCL, se perspectivou ou foi deliberado doar os referidos livros e outros documentos quer ao senhor João Freire quer a alguma outra entidade com carácter público ou privado.

Segundo, é com o propósito de contribuir para o cabal esclarecimento desta situação ocorrida no CCL, Associação que então se viu delapidada de alguma parte do seu património histórico (contextualizando o 3º ponto da Ordem de Trabalhos: Situação perante o Arquivo Histórico Social, posição definitiva do Centro), que aqui transcrevo parte do conteúdo da acta número 13 da Assembleia Geral Extraordinária, a folhas 39/42, da ordem sequencial do Livro de Actas, datada aos nove dias de Novembro de mil novecentos e oitenta e seis: «Através do João Freire foi-nos pedido um certo número de títulos da nossa biblioteca, para seguirem para a Biblioteca Nacional através do Centro de Estudos Libertários. Nessa altura acedi a tal transacção dos livros porque não vi grandes inconvenientes e porque confiava na pessoa de João Feire. Hoje a minha opinião é diferente. Se esses livros fazem parte do património do Centro e podendo a sua biblioteca ser dinamizada, entendo que é neste Centro que os livros devem permanecer. Se temos perspectivas de remodelar este Centro, não nos podemos permitir o luxo de o empobrecer. Somos talvez hoje o núcleo anarquista que mais publicações periódicas e não periódicas recebe, aumentando, assim, gradualmente o nosso espólio e podendo fazer deste Centro um Centro de Documentação e Arquivo, sem tutela do Estado, como acontece na Biblioteca Nacional. Não temos em nosso poder nenhum termo de responsabilidade passado pela Biblioteca Nacional em como, a qualquer momento, poderemos recuperar os livros. A palavra de João Freire não me chega, hoje. Pelo seu comportamento em relação à coordenadora libertária, por se ter demitido deste Centro sem qualquer explicação, pela sua falta de frontalidade (utilizando lateralmente influências, à boa maneira da cunha e coscuvilhice portuguesas, em lugar de se dirigir directamente ao Centro), João Freire não me merece a mínima consideração nem confiança, tanto como anarquista, como também como pessoa.»

No essencial, julgo não proceder como se nada na recente história do anarquismo em português se tivesse passado. Realmente, no CCL facilitámos em demasia as vivências os acontecimentos, por isso, parece que somos considerados ingénuos politicamente. Mas não declinámos perante os objectivos programáticos da Associação e, porventura, isso leva-me também hoje a interrogar se não será justo reivindicar a devolução dos referidos documentos históricos subtraídos à biblioteca e ao fundo documental da Associação. Não quero deixar de realçar uma breve referência a Carlos Reis expressa na Acta número 14, com a data de vinte e quatro de Janeiro de mil novecentos e oitenta e sete, a folha 42, reportando que o único voto a favor da transferência dos livros deste Centro para a Biblioteca Nacional, foi o dele.

Finalmente, é certo que confirmada a natureza dos factos acima aludidos estes configurarão um abuso de confiança bem como de apropriação indevida de bens, e também uma total quebra de lealdade por parte deste antigo sócio do CCL, que actuou em circunstâncias e contornos muito pouco esclarecedores face ao funcionamento desta Associação.

Quanto ao amadurecimento do anarquismo em português, foi com este tipo de colaborações que o «nosso» académico pretendeu com o seu projecto pseudo libertário atingir o compromisso reformista iniciado em torno da publicação A Ideia a partir de 1974.

Em sequência, exulto na qualidade de associado e membro dos órgãos sociais do CCL, prometendo respeitar todas as decisões da Assembleia Geral que será convocada para o efeito, com a minha exclusiva responsabilidade neste processo de reparação moral, procurando determinar e envolver todos os associados que queiram de agrado contribuir, dignamente, para o devido esclarecimento do processo, tendo em vista a reposição dos livros e outros documentos no arquivo que, antes demais, pertencem a esta Associação Libertária.

Com as saudações libertárias,

Carlos Gordilho

Quinta da Alegria, Almada, 2017

(Texto publicado em 23 de Abril de 2017: culturalibertaria.blogpost.pt)

 

Excerto da carta de Rui Vaz de Carvalho

 

Rui vaz de Carvalho

Freire, João, “Memórias de um médio-burguês”,  Edições Frontamento, Porto, 2007

MEMÓRIAS DE UM MÉDIO-BURGUÊS

Sr. Carlos Gordilho,

Pessoa amiga trouxe ao meu conhecimento o texto por si publicado em http://culturalibertaria. blogspot.pt/2017/04/senhores- propagandistas-da-banha-de_23. html no qual são feitas referências pouco abonatórias à minha pessoa.

Admitindo deficiente ou insuficiente informação sua, arrisco-me a fazer o seguinte esclarecimento:

1-Em 1968 desertei para o estrangeiro, por oposição à guerra colonial, ao regime político e ao militarismo. Residi em França até 1975 e aí participei no “Maio de 68” e integrei o movimento anarquista.

2-A partir de 1974, empenhei-me na tentativa de construção de uma estrutura organizada dos anarquistas em Portugal, em particular com a criação da FARP. Nesse âmbito, fui preso em Barcelona em 1977, quando participava num plenário clandestino da FAI, e expulso daquele país.

3-Cerca de 1978, considerando que a conjuntura nacional e internacional estava em significativa mudança, o meu grupo desvinculou-se da FARP. No entanto, por solidariedade para com outros militantes, mantive-me como aderente individual até ter sido decida, em Almada, a suspensão das actividades daquela federação. Foi por proposta minha que o grupo local ficou depositário dos arquivos daquela organização.

4-A minha pessoa foi frequentemente alvo de ataques pessoais por parte de elementos do grupo ‘Acção Directa’ e de indivíduos como o Gabriel Mourato, o Júlio Carrapato ou (este, apenas a espaços) o Rui Vaz de Carvalho. No entanto, não recordo ter havido da parte deles qualquer crítica escrita fundamentada às posições tomadas pelos diversos colaboradores da revista A Ideia com as quais, em geral, eu era concordante. Não fui o único a receber tais ataques: o José Maria Carvalho Ferreira pode testemunhá-lo.

5-É certo que na época me demarquei, quer do “anarco-populismo” de uma folha como A Merda, quer daqueles que se envolveram em acções armadas típicas de uma certa extrema-esquerda, o que me valeu mais algum banimento. Porém, com o José de Brito voltei a ter relações de simpatia e colaboração, respeitando a eu sua iconoclastia, e ele a minha ponderada actividade.

6-Em 1979-80, com a participação dos mais activos e influentes militantes da velha geração do anarco-sindicalismo – entre os quais Emídio Santana, Adriano Botelho, Acácio Tomás de Aquino, Reis Sequeira, Lígia de Oliveira, Moisés Silva Ramos e muitos outros – fundou-se o Centro de Estudos Libertários e criou-se o Arquivo Histórico-Social, depositado na Biblioteca Nacional. Do lado de Almada e dos outros grupos da margem sul do Tejo, houve plena adesão a esta iniciativa, salientando-se os nomes de Sebastião de Almeida, Francisco Quintal, Irene Franco e Jorge Quaresma. Pessoalmente, dei a este projecto total colaboração e creio ter sido executor fiel da vontade desses militantes. Entre mim e todos eles houve sempre relações de grande respeito mútuo e de amizade. Por outro lado, com eles, sempre considerei os arquivos públicos como melhor meio de preservação de memória de movimentos sociais como este, relativamente à detenção por quaisquer pessoas privadas. Isto lhe será confirmado por quem tenha um mínimo de formação científica.

7-A partir daquela mesma época, o grupo editor d’A Ideia desvinculou-se de qualquer laço organizativo permanente mas participou ou esteve na origem de várias iniciativas em colaboração com outros grupos de carácter libertário, ecologista, etc. Cerca de 1985, lançou a ideia de uma comemoração do centenário do anarquismo em Portugal, para 1987. Contudo, a minha ausência de um espectáculo musical (que se saldou por um prejuízo financeiro importante e contra cuja “ambição desmedida” eu alertara) foi considerada por alguns como quebra de solidariedade e motivo para nova campanha de ataques contra a minha pessoa. Assim, foi o meu grupo que suportou sozinho a organização do Colóquio Internacional de Estudos ‘Tecnologia e Liberdade’ e da exposição bibliográfica e iconográfica ‘Cem Anos de Anarquismo em Portugal’.

8-É provável que tenha havido conversações para que algumas das colecções documentais organizadas pelo Grupo de Cultura e Acção Libertária, de Almada, viessem juntar-se ao Arquivo Histórico Social mas não creio que tal se tenha concretizado. No essencial, este fundo arquivístico foi constituído pelas doações de Emídio Santana, Edgar Rodrigues, Adriano Botelho, Alberto Pedro da Silva, José Joaquim da Graça, Lígia de Oliveira, Francisco Quintal-Irene Franco e herdeiros de Mário Castelhano, além de outros. A memória já se vai esbatendo mas é possível que os registos documentais existentes em Cacilhas sobre essa hipotética doação tivessem mais a ver com os conflitos internos aí surgidos, que levaram ao afastamento dos principais militantes antigos e à cessação do jornal Voz Anarquista, do que propriamente com o Arquivo Histórico Social.

9-Em 1991 a revista A Ideia suspendeu a sua publicação. Se na década anterior ela se colocara já fora do “militantismo de rua”, realizando apenas tarefas de natureza político-cultural, agora deixara internamente de existir consenso para o prosseguimento sequer dessa actividade, isto na sequência das alterações políticas mundiais surgidas (queda do socialismo de Leste e guerra do Golfo), das nossas visões sobre o estado do país e da própria evolução de cada um.

10-Pessoalmente, há trinta anos que cessei qualquer espécie de militantismo, tendo publicado por diversas ocasiões as minhas observações críticas sobre os limites e riscos deste tipo de activismo (nomeadamente no campo anarquista) e revi criticamente quase tudo o que o anarquismo tradicional tem transportado ao longo de décadas como “tralha ideológica”, sem deixar de sentir simpatia pelas suas melhores inspirações e de guardar sempre o maior respeito pelos sacrifícios consentidos por várias gerações de militantes, sobretudo os de origem mais modesta.

11-Continuo a pensar em termos que também encontram abrigo em algumas das formulações antigas do pensamento libertário e a procurar soluções de maior equidade para o conjunto da humanidade, sempre em ambiente da maior liberdade que for possível alcançar. Tenho ainda alguns (poucos) amigos anarquistas típicos, a despeito das nossas diferenças de opinião, tal como aprendi com a convivência que tive com pessoas das antigas gerações, não só de portugueses, mas também de resistentes espanhóis, franceses, italianos, etc. Admito que militantes anarquistas actuais me tomem como “traidor” à sua causa, se esta se refere à apologia ou prática de acções violentas ou à crença numa revolução salvadora. Mas estou indisponível para ter qualquer espécie de contactos com estes. Creio que já mereço algum descanso.

João Freire

(25.Abril.2017)

 

Texto publicado: Portal.anarquista, 1.06.2018

João Freire foi um dos primeiros desertores da Marinha em plena guerra colonial. Em França participou activamente na luta antifascista e nas jornadas de Maio de 68 que lhe deram a conhecer as ideias anarquistas a que, posteriormente,aderiu de forma entusiástica. Foi director e impulsionador da primeira revista anarquista a ser distribuída em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 (A Ideia). Professor universitário, é autor de diversos trabalhos sobre o anarquismo e figuras do anarquismo em terras portuguesas, embora nos últimos anos tenha vindo a assumir posições “reformistas” e heterodoxas, muitas delas marginais ao anarquismo. A pouco e o pouco o seu percurso foi-o afastando do anarquismo militante e das ideias anarquistas e aproximando-o de posições mais conservadoras, de que os textos inseridos no blogue http://aideialivre.blogspot.com/, que alimentou até final do ano passado, são um exemplo.

No entanto, continua a ser uma das figuras centrais na (re)construção do espaço libertário após o 25 de Abril em Portugal, mesmo que há vários anos dele ausente.

E, também por isso, num movimento marcado pela pluralidade de olhares e de opiniões (onde os anátemas inquisitoriais sobre uma eventual “linha justa” não fazem qualquer sentido), as reflexões de João Freire em torno de um projecto libertário – sereno e racional, como ele lhe chama – só podem suscitar interesse para os que se situam no campo anti-autoritário.

Venham as ideias e o debate. É isso que interessa. A apresentação do livro – “Um Projecto Libertário – sereno e racional” -, é esta noite na Feira do Livro em Lisboa e vão estar presentes, para além do autor João Freire, Miguel Serras Pereira, Paulo Guimarães e Fernando Medeiros, numa conversa moderada por António Cândido Franco.